9.11.09

Rosa Alice Branco (Passos sem memória)








PASSOS SEM MEMÓRIA





Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas
andam por aí e a relva vai secando no varal. Manhã cedo,
o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume
e o jornal. A saliva com que te hei-de dizer bom dia.
As palavras são as primeiras a chegar. O que fica delas
amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem
e os sonhos de hoje. Prepara-se o dia, os passos
de ir e vir. Estou cada vez mais perto. Olhas-me
como se soubesses o que hei-de saber mais logo.
Nesta cidade nunca é meio-dia. Há sempre uma doçura
de outras horas. E recordações avulsas. Deixa-as sair
de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.
A janela está vazia. O meu filho caminha na praia
e tu soletras as gaivotas. Caminha à minha frente
sem deixar pegadas. Perco-me como todas as mães,
todos os amantes. Invento passos e palavras
para adormecer. A esta hora a minha avó enrolava o rosário
nas mãos. Eu estava dentro das contas, dentro do sono
que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.
Agora caminhamos juntos. Sem memória.



Rosa Alice Branco


Enrique Vila-Matas (Está a ouvir-me, Miss Stein?)









(Está a ouvir-me, Miss Stein?)





Às vezes eu passava, ao entardecer, diante daquela casa da rue de Fleurus e desejava que fazê-lo me desse sorte.

Nunca me deu, pelo menos enquanto eu permaneci em Paris, de maneira que este Agosto, quando fui de novo ver a casa talismã, olhei para a placa comemorativa, pensei em Gertrud Stein e na sorte que não me deu e no medo que eu tinha noutro tempo que o seu espírito descobrisse as minhas modestas ligações com Joyce, e também pensei, ou melhor, recordei os problemas que então eu tinha com a unidade, a harmonia e para já não falarmos com o estilo e com o factor tempo.

E desta vez desabafei, disse em voz muito alta, arriscando-me a ser tomado por louco:

“Miss Stein, a senhora está aí, consegue ouvir-me?

“Olhe, olhe-me bem, sou Heminguay.

“Consegue ver-me?

“Ulisses é bom como o caralho é bom como o caralho é bom como o caralho.

“Está a ouvir-me, Miss Stein?”



- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 51.


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8.11.09

Fernando Pessoa / A. Campos (Nunca conheci)








NUNCA CONHECI QUEM TIVESSE LEVADO PORRADA





Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Álvaro de Campos


6.11.09

Ana Pérez Cañamares (Filha)









Hija, si en algún momento,
mientras estás ocupada en crecer
- dura y lícita tarea -
puedes mirarme a los ojos,
hazlo.


No te dejes las preguntas
para cuando sea la misma voz
la que cuestione y la que responda.


Mira que en esta familia
tenemos la dolorosa costumbre
de conocernos mejor de muertos.



Ana Pérez Cañamares






Filha, se em algum momento,
enquanto estás ocupada a crescer
- dura e lícita tarefa –
puderes olhar-me nos olhos,
fá-lo.


Não deixes as perguntas
para quando for a mesma voz
a perguntar e a responder.


Olha que nesta família
temos o doloroso costume
de conhecer-nos melhor em mortos.


(Trad. A.M.)


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Carlos Nejar (De como a terra-2)









2.

Que será do novo homem
sobre a terra que vergasta ?
Sangra a terra, pasce o gado
e o trabalho é o que nos passa.


Vem o sol e cava a terra;
a semente é como espada.
Há uma noite que nos gera
quando a noite é dissipada.


Vem a noite e cava a terra;
vem a noite, é madrugada.



Carlos Nejar


Casimiro de Brito (Amar-te é nascer de novo)








Amar-te é nascer de novo, regressar à minha fonte.
Nesse momento, começo a morrer.



Casimiro de Brito




28.10.09

Antonio Machado (Conselhos)







CONSELHOS




Sabe esperar, aguarda que venha a maré
- como na costa um barco - e não te inquiete o partir.
Quem aguarda sabe que é sua a vitória;
porque a vida é longa e a arte um brinquedo.
E se a vida é curta
e o mar não chega à tua galera,
aguarda sem partires e espera sempre,
que a arte é longa e, ademais, não importa.




Antonio Machado



(Trad. A.M.)


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Cesário Verde (Contrariedades)







CONTRARIEDADES





Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.


Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.


Pobre esqueleto branco entre nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas...


O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

(…)

Cesário Verde


Um verso (65)














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26.10.09

José Miguel Silva (Feios, porcos e maus)








FEIOS, PORCOS E MAUS




Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.


Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.


A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.




JOSÉ MIGUEL SILVA
Movimentos no Escuro
(2005)



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Juan Carlos Mestre (Parménides)








PARMÉNIDES





La verdad es una diosa que enseña el camino a los errantes.
Si debe ser necesaria la luz antes ha de no ser la noche.
El olvido es la presencia aparente de lo que aún existe.
La diosa habita el círculo de la benevolencia, es piadosa.
Lo femenino es la rueda de un carro, lo masculino la otra.
Yo soy dos semejanzas paralelas de amor, dos infinitos.
No sé si las yeguas piensan o padecen, dudo entonces.
¿Es más justo el que nace o el que no pudo ser?
Cuando me muera regresaré al todo de la nada. Estoy contento.



Juan Carlos Mestre







A verdade é uma deusa que ensina o caminho aos errantes.
Se há-de ser necessária a luz antes há-de não ser de noite.
O olvido é a presença aparente do que ainda não existe.
A deusa habita o círculo da benevolência, é piedosa.
O feminino é a roda de um carro, o masculino a outra.
Eu sou duas semelhanças paralelas de amor, dois infinitos.
Não sei se pensam ou padecem as éguas, então duvido.
É mais justo o que nasce ou o que não pôde ser?
Quando morrer hei-de voltar ao tudo do nada. Estou contente.


(Trad. A.M.)




Fontes: Juan Carlos Mestre (sítio pessoal / bio+poesia+galeria+ música) / A media voz (12p) / Wikipedia


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25.10.09

Ver (31)


Herberto Hélder (Sobre um poema)








SOBRE UM POEMA




Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Hélder



[Um buraco na sombra]


23.10.09

Enrique Vila-Matas (Estou cansada de ti)







(Estou cansada de ti, Hemingway...)





Nesse dia 25 de Agosto, a minha mulher e eu libertámos os nossos impulsos mais secretos, como se estivéssemos a libertar as caves do Ritz, libertámo-nos talvez demasiado.

Começámos por pedir dois daiquiris e, quando me animei um pouco, contei-lhe o choque militar de Malraux com Hemingway no Ritz.

“Estou cansada de ti, Hemingway”, disse-me de repente a minha mulher, filha e neta de militares.

E eu deveria ter-me lembrado nesse momento que nela pernoitava – o verbo mais adequado é precisamente este termo castrense, pernoitar – uma fobia sua do tipo militar, um ódio apenas nocturno e com álcool pelo meio, uma oculta mas séria aversão contra mim e sobretudo contra a minha mania de que alguém finalmente um dia, mesmo que seja sob a forma de mentira piedosa, me diga que me pareço fisicamente com Hemingway.

Mas não dei a devida importância àquele primeiro toque de agressividade.

Pedimos mais dois daiquiris e depois outros dois e a seguir mais dez, e eu passei a chamar aos daiquiris cocktails Malraux.

Soava bem, parecia-me que soava na perfeição: cocktails Malraux.

Mas já se tinha tornado tudo perigoso, como um gigantesco cocktail molotov.

De repente descobrimos que estávamos ali passava já da madrugada e, para o dizer em termos bem hemingwaianos, na outra margem e entre as árvores.

Rindo como felizes e verdadeiros palermas, as horas tinham-nos passado a voar e fazia-se-nos dia no bar.




- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.




António de Almeida Mattos (Te leio)








Te leio
poro a poro


e reescrevo
a golpes de cálamo


E ternura



António de Almeida Mattos


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