17.7.09

Luís Cernuda (Contigo)









CONTIGO





¿Mi tierra?
Mi tierra eres tú.


¿Mi gente?
Mi gente eres tú.


El destierro y la muerte
para mi están adonde
no estés tú.


¿Y mi vida?
Dime, mi vida,
¿qué es, si no eres tú?



Luis Cernuda







Minha terra?
Minha terra és tu.


Minha gente?
Minha gente és tu.


Desterro e morte
para mim estão onde
não estejas tu.


E minha vida?
Diz, minha vida,
que é, se não és tu?


(Trad. A.M.)





Fontes: Sítio oficial / A media voz (40p) / Poesi.as (25p)


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Ana Paula Inácio (Deixa o tempo)









DEIXA O TEMPO





deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia



abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro



com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.



Ana Paula Inácio


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Charles Baudelaire (Embriagai-vos)









(Embriagai-vos...)







É preciso estar sempre bêbado.

Tudo bate aí: eis a questão.

Para não sentirdes o horrível fardo do tempo que vos esmaga os ombros e vos inclina para terra, tendes que embriagar-vos sem parar.

Mas de quê?

De vinho, de poesia ou de virtude, à vontade.

Mas embriagai-vos.




- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XXXIII.


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15.7.09

Olhar (53)












Ria de Aveiro

(Canal de Mira)

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Camilo Castelo Branco (O cego de Landim)









(Ressumbrava-lhe no semblante...)






Foi há treze anos, em uma tarde calmosa de Agosto, neste mesmo escritório, e naquele canapé, que o cego de Landim esteve sentado.

São inolvidáveis as feições do homem.

Tinha cinquenta e cinco anos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta.

Ressumbrava-lhe no semblante anafado a paz e a saúde da consciência.

Tinha as espáduas largas; cabia-lhe muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam-se na amplidão da pleura elástica.

Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro.

Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.


- CAMILO CASTELO BRANCO, Novelas do Minho (O Cego de Landim, I).






NOTA:


Lê-se o homem de génio, passado um século, ou pouco mais, em duas ou três novelas.

Anotam-se algumas palavras, em tal leitura, menos usuais no tráfico actual.

Vai-se ao dicionário (Priberam) e afinal estão lá todas, menos uma (esparavonar).

Aqui ficam, com esta impressão, de que porventura progredimos pouco em matéria de língua, nos últimos cem anos:


aflante
apojadura
arribana
averdugar
bagadas
barregar
boíz
bornal
cafurna
caluga
cangosta
carnaz
choutar
empecer
escarmentar
esparavonar
esquineta
granjearia
gilvaz
impertérrito
irrogar
jolda
ladravaz
lardo
pedâneo
perlustrar
rebalsar
ressumbrar
sestro
tumescente
virago
visagem




Para ver: Casa de Camilo


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Casimiro de Brito (O aforismo)









O aforismo é um quase silêncio; uma pegada de gaivota na areia da manhã.





CASIMIRO DE BRITO
Da frágil sabedoria (2001)


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14.7.09

José Carlos Ary dos Santos (Na mesa do Santo Ofício)









NA MESA DO SANTO OFÍCIO





Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.


Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.


Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.



José Carlos Ary dos Santos


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13.7.09

Octavio Paz (As palavras)









LAS PALABRAS





Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas tus palabras.



Octavio Paz







Vira-as,
pega-lhes pelo rabo (chiem, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.


(Trad. A.M.)
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Fontes: Poesi.as (156p) / A media voz (43p) / Los poetas (15p+bio)


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11.7.09

Manuel António Pina (O jardim das oliveiras)









O JARDIM DAS OLIVEIRAS





Se procuro o teu rosto
no meio do ruído das vozes
quem procura o teu rosto?



Quem fala obscuramente
em qualquer sítio das minhas palavras
ouvindo-se a si próprio?



Às vezes suspeito que me segues,
que não são meus os passos
atrás de mim.



O que está fora de ti, falando-te?
Este é o teu caminho,
e as minhas palavras os teus passos?



Quem me olha desse lado
e deste lado de mim?
As minhas dúvidas, até elas te pertencem?



Manuel António Pina


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Mário Quintana (Preparativos para a viagem)









PREPARATIVOS PARA A VIAGEM





Uns vão de guarda-chuva e galochas,
outros arrastam um baú de guardados…
Inúteis precauções!
Mas,
se levares apenas as visões deste lado,
nada te será confiscado:
todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
- a sua única felicidade!
E os próprios Anjos, esses que fitam eternamente
a face do Senhor…
os próprios Anjos te invejarão.



Mário Quintana


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Um verso (57)
















Um verso de Pablo Garcia













Pablo García Casado






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9.7.09

Ver (23)


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S.Miguel

(Açores)

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José Emílio Pacheco (A quem possa interessar)









A QUIEN PUEDA INTERESAR





Que otros hagan aún
el gran poema
los libros unitarios
las rotundas
obras que sean espejo
de armonía



A mí sólo me importa
el testimonio
del momento que pasa
las palabras
que dicta en su fluir
el tiempo en vuelo



La poesía que busco
es como un diario
en donde no hay proyecto ni medida.




José Emilio Pacheco


[Noctambulario]






Que outros façam ainda
o grande poema
os livros unitários
as rotundas
obras espelho
de harmonia



A mim importa-me só
o testemunho
do momento que passa
as palavras
que o tempo voando
dita em seu fluir



A poesia que busco
é como um diário
onde não há projecto nem medida.



(Trad. A.M.)


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António Ramos Rosa (Poema dum funcionário cansado)









POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO




A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só



António Ramos Rosa


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7.7.09

F. Sá de Miranda (Quando eu, senhora)









Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.



Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.



Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?



Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.



F. Sá de Miranda


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Charles Baudelaire (Deixa-me respirar)








(Deixa-me respirar...)





Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles o meu rosto inteiro, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a minha mão como um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar.


- CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XVII.




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Ana Pérez Cañamares (Meu pai era Daniel)









MI PADRE SE LLAMABA DANIEL




Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa)


Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario)


Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto)


Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.


Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.


Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.



Ana Pérez Cañamares


[Dalton Trompet]





O que pensei primeiro foi:
morreu sozinho
(o melhor bálsamo
para a culpa
é acompanhar na morte)


Depois pensei:
não me voltou a ligar
depois do meu último telefonema
(jamais reflectimos
que o desejo de independência
também pode ser hereditário)


E depois ainda: já não tenho pais
(e ao olhar para trás descobri
que há muito tempo
nenhuma mão
me segura a bicicleta para eu montar)


Agora não posso deixar de pensar:
pai, eu não estou morta
mas também perco muita coisa.


Já não estou chateada contigo.
De cada vez que penso em ti
é domingo de manhã.
Levas-me aos ombros
e eu sei que vais comprar-me
um batido de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois a tua mão grande há-de abrir-se,
diante dos meus olhos, e mostrar-me o tesouro:
uma carica de mirinda e outra de pepsi.


Quarenta anos para descobrir
que estava já tudo dito ali.


(Trad. A.M.)




Fontes: El alma disponible (blogue pessoal) / Escritoras (nota+linque) / El libre pensador (entrevista-2008) / El rincon del haiku (haiku)


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